28 março 2014

O Escriba de Granada - Gilberto Abrão

Saudações aos loucos por livros! Hoje, com o apoio da Companhia Editora Nacional, conversaremos sobre uma obra de peso no cenário literário nacional. Obra esta que lhe faz amá-la e abominá-la, além de ser tão polêmica quanto o autor que a publicou.


O Escriba de Granada Título: O Escriba de Granada.
 Autor: Gilberto Abrão.
 Edição: 1ª.
 ISBN: 9788504018851.
 Editora: Companhia Editora Nacional.
 Ano de Lançamento: 2014.
 Páginas: 360.
 Sinopse: "De um lado, temos a história contada pelo escriba, Abul Qacem, narrando o auge e a queda de Gharnata para os reis  católicos. Essa história é entremeada por um tórrido e proibido romance que o escriba vive com a sultana Aisha, esposa do rei de  Gharnata. Tal romance será tanto motivo de glória como de tragédia para o escriba. Do outro, temos Jorge, um funcionário público  brasileiro que vive seus dias sem propósito, apenas criticando e julgando comunistas, homossexuais, muçulmanos e negros. Jorge tem  um segredo que não revela a ninguém. Na tentativa de compreender esse segredo, ele inicia uma empreitada que revelará muito mais  do que ele sonha encontrar. Duas histórias paralelas com um ponto em comum. Leia, descubra e se deixe tomar pelo caleidoscópio de emoções."


Aqueles que acompanham minha resenhas bem sabem que qualquer história que contenha paralelos temporais, seja com o passado ou com o futuro, possui grandes chances de me agradar. Entretanto se torna complicado de se ler, e muito mais para se falar a respeito, quando o presente da história não nos agrada. Para que compreendam vamos por partes: o desenrolar da trama introduz dois personagens centrais em épocas e contextos completamente distintos. Por um lado visualizamos a localidade de Granada (Espanha) na Idade Média, época em que os muçulmanos reinavam em boa parte das regiões ibéricas vivendo em constante crise com os cristãos católicos de Castela e sob o medo de uma guerra iminente. Conhecemos um sábio e culto muçulmano que é introduzido no seleto grupo de auxiliares do sultão (imperador) de Granada. Já por outro lado, nos dias atuais, conhecemos Jorge, um sujeito adulto repleto de traumas em decorrência da infância conturbada, que cresceu e se tornou uma pessoa antissocial, preconceituosa e sanguinária, sendo ele membro ativo do DOPS e defensor ferrenho do período ditatorial militar brasileiro.


O desenvolvimento da história no passado, que se baseia em acontecimentos históricos verídicos, é fantástico. A forma com que o autor uniu personagens criados com personagens históricos como El Rey Chico (Boabdil), Cristovão Colombo, Rei Fernando de Castela, entre outros, é algo lindo de se ver, assemelha-se a forma com que os criadores da franquia Assassin's Creed sempre fizeram em seus títulos lançados. Enfim, quem gosta de história, Era Medieval e principalmente de batalhas medievais envolvendo campeões, cavaleiros, espadas e galanteria no geral, ficará fascinado com esse lado da história que narra desde a chegada de Abul Qacem até a queda e rendição completa do reino de Granada. Conspirações, estratagemas de batalha e coisas do tipo não faltam nas páginas dessa obra, tanto é que me deu saudade das Crônicas de Gelo e Fogo revivendo minha ansiedade pelo próximo volume.


Abul Qacem é um sujeito relativamente simples e gentil, apesar de sua carga intelectual impressionante, o que faz com que rapidamente se torne um aliado essencial do sultão, além de se tornar amigo de muitos na corte, e posteriormente amante da bela sultana Aisha. Qacem é um homem muito religioso e instruído nas leis islâmicas, além de praticante assíduo dos ritos e doutrinas presentes no sagrado Corão. Por conta disso carrega uma culpa tremenda sobre si, por não conseguir se desvencilhar do amor irresistível que o mantém fascinado pela sultana e preso ao adultério. Apesar do risco constante de ter sua cabeça decepada e da promessa de um profeta de ter sua descendência amaldiçoada por vinte gerações em decorrência de seu pecado, desde moço até já já com a idade avançada vive uma vida completamente entregue de corpo e alma a sultana Aisha, se colocando a sua disposição com seu coração e espada até mesmo em situações claramente adversas. Esse lado da historia é magnífico.


No outro extremo da história conhecemos Jorge, filho de uma prostituta com um pai espanhol, que se tornou ausente desde a mais tenra idade do garoto, que viveu boa parte de sua infância em um internato católico, onde era aliciado por um padre pedófilo que abusou de sua inocência enquanto ele não crescia e tivesse discernimento o suficiente para compreender o que era aquele tipo de atitude. Devido a esses traumas, Jorge encontra dificuldades em engatar um relacionamento amoroso duradouro devido a sua personalidade complicada, agressiva e fetiches sexuais estranhos. Além disso, por conta das zombarias dos colegas de internato enquanto sofria abusos, desenvolveu um grande ódio contra homossexuais, com ideias preocupantes sobre que destino esse tipo de pessoas deveriam ter. Em sua juventude Jorge acompanha o Golpe Militar de 1964 e se torna um apoiador do regime. Junto de um amigo galga vagas na polícia até que conseguem chegar ao patamar de membros do famoso DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), onde se alegra e se realiza pessoalmente em um cotidiano de denúncias a possíveis comunistas e rebeldes oposicionistas ao regime para que fossem presos, torturados e até mesmo mortos. Com a queda do regime, Jorge se torna um profissional administrativo em uma repartição pública e para sua surpresa seu novo supervisor é um dos seus acusados que retornou do exílio e de uma estadia nos calabouços infernais dos militares. O mesmo faz com que o resto dos dias de trabalho de Jorge se tornem uma solidão completa o remanejando para um setor onde trabalharia sozinho até sua aposentadoria.


Minha leitura foi marcada por altos e baixos pelo fato das narrativas serem alternadas, praticamente um capítulo focando em cada um dos personagens em suas respectivas épocas.  É claro que com o desenrolar da trama o autor vai afunilando de forma com que possamos associar e entender o que um tem a ver com o outro para que estejam na mesma história. Vale mencionar que ele faz isso maravilhosamente bem. Porém até que isso ocorra a história do Jorge é insuportável e com detalhes que ao meu ver foram completamente desnecessários, pois se baseando no foco central da obra não agregaram absolutamente nada. Como por exemplo posso citar a tentativa de experiência homossexual de Jorge, onde vemos várias páginas discorrendo sobre assunto a fim de chegar a um desfecho completamente bizarro e tosco.  Como se não bastasse esses relatos esquisitos da vida torta de Jorge, vemos o autor associar esse mesmo Jorge, que é apresentado de forma abominável ao leitor, como representante da ideologia política de direita. Um sujeito de direita amante de um regime totalitário como a ditadura é o cúmulo da falácia.


Por mais que nossa análise tenha que ser meramente literária, existem aspectos que nos preocupam, como o fato de ver inúmeras falácias e estereótipos como "direita homofóbica", "direita fascista" e afins, sendo disseminados, até porque existem pessoas que abraçam cegamente qualquer ideia que lhe seja apresentada. "Ah, Gláucio, mas é apenas uma obra literária fictícia!", de fato é, no entanto o autor não é um sujeito apolítico e mesmo sua ficção é influenciada e contém parte daquilo que ele professa. Fica minha recomendação: Estudem. Não engulam qualquer coisa. Como exemplo temos a própria obra apresentando Jorge como um cara que odeia homossexuais nos anos de chumbo por influência da suposta direita (direita totalitária, ah tá),  no entanto o que a história diz é algo completamente diferente: a esquerda, ou seja, os regimes comunistas, sempre abominaram e até mesmo assassinaram os homossexuais. Para mais detalhes acerca disso, sugiro um artigo que trata do assunto com perfeição com as devidas referências, clique AQUI para lê-lo.


Enfim, meu saldo do livro ainda foi positivo pela incrível narrativa de Abul Qacem, porém não posso dar nota máxima em decorrência do lado da história que envolve o Jorge ser um pouco cansativa (apesar de que depois, quando começa a conectar as duas histórias, fica mais interessante), e um outro fator que também vale ressaltar que não gostei muito é a capa. Ao meu ver ficou um pouco infantil, poderia ser algo muito mais sério/intenso, e que também fizesse menção do Jorge. Pois querendo ou não capa de livro interfere na primeira impressão do leitor que se depara com a obra.


Espero que tenham gostado da recomendação do livro e da resenha. Por último gostaria de salientar que não tenho absolutamente nada contra o Gilberto Abrão, pelo contrário, é um autor de alto nível, apenas procurei expor de maneira sincera tanto as qualidades quanto os defeitos da obra, de acordo com minha concepção.


Boa leitura e um forte abraço à todos!


Citações:


"No arraial, passo por estas paredes, as paredes de Laila,
e beijo esta ou aquela parede,
não é amor às casas do arraial que tomou meu coração,
mas, sim, o amor por aquela que habita uma das casas."


"Linda Gharnata! Como foi que tua glória desapareceu?
A Flor dos teus cavaleiros está aprisionada em terras estrangeiras!
Não mais a Viva Rambla haverá de ecoar o relinchar dos corcéis e
O som das trombetas; não mais ela estará lotada com seus nobres
jovens gloriosamente vestidos para os duelos nos torneios.
Linda Gharnata! A nota lânguida do alaúde não mais flutua por
tuas ruas iluminadas pelo lua; as serenatas não mais são ouvidas
sob teus balcões; as castanholas animadas estão silentes em tuas
montanhas; a graciosa dança da Zambra, com seus leques batendo
como assas de pássaros esvoaçando no ar e as saias mouras
farfalhando, não mais serão vistos sob teus caramanchões!
Linda Gharnata! Por que está Al-Hamra tão abandonada e 
desolada? A laranja e a murta ainda exalam seus perfumes nas
câmaras sedosas; o rouxinol ainda canta dentro dos bosques;
os salões de mármore ainda são refrescados com as águas jorradas
das fontes e dos riachos límpidos.
Ai de mim! Ai de mim! O semblante do rei não mais brilha dentro
dessas salas. A luz de Al-Hamra está apagada para sempre!"


Nota 3,5 de 5 


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5 comentários:

  1. Não curti o enredo desse livro não, pra falar a verdade. Não é o tipo de leitura que eu busco no momento
    Mas valeu, sua resenha está demais, parabéns!
    Beijo

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  2. Eu curto estórias mais futurísticas do que de passado, não curti esse livro, e ainda mais depois da parte que você disse que tem a parte que fica cansativa, o livro não parece ser ruim, mas para o meu gosto literário ele não se encaixa

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  3. Parabéns pela opinião sincera e verdadeira.
    Dito isto também acho que a parte que envolve a Idade Média seja mais interessante, por ser um universo rico de possibilidades e que o autor soube usar muito bem, já a história no presente não tenho uma opinião formada por não ter lido, lógico o trauma que ele sofreu quando criança influencia suas atitudes, só que só isso não é capaz de guiar para sempre suas ações, vejo que a maioria tem esse problema com a leitura, tem uma opinião dividida, preciso ler o livro para poder dizer, espero que eu me surpreenda positivimente.

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  4. Olá Gláucio, tudo bem??
    Primeiro queria te parabenizar por tua resenha...Algo maravilhoso tua explicação e entendimento em relação aos detalhes que mais te agraram e os que tu não gostou tanto...Creio que apesar de achar esta tua leitura super interessante, confesso que não seria algo que me atraiu a realizar a leitura, pois confesso que teria dificuldade de compreender a historia, mas ainda assim fiquei bastante feliz de ler uma resenha como esta.

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  5. Ainda que eu goste muito de livros que intercalem tempos, não sei se teria disposição para encarar essa história. Até porque no momento estou optando por leituras mais leves. O enredo em si me pareceu bastante interessante, mas não sei... O livro me perdeu com a sua descrição do personagem Jorge. Ótima resenha!

    Beijos.

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